José Edson Sales Txanu Kaxinawá, um yuxin PDF Imprimir E-mail
Seg, 12 de Março de 2012 04:04

Para os Huni Kui, gente verdadeira, o mundo espiritual ou a força vital, o mundo yuxin, não é algo sobrenatural ou sobre-humano, localizado fora da natureza e fora do humano, mas está em todos os fenômenos vivos na terra, nas águas e nos céus.

Como Agente Agroflorestal Indígena, José Edson Sales Txanu Kaxinawa compreendeu, cuidou, cultivou diversas formas de vida na floresta. Agora, que fez sua passagem e está morando no mundo yuxin, pertence a todas elas. Foi fazer o seu trabalho sendo a própria essência da vida.

Este seu depoimento, que foi dado durante a visita de trabalho que fez à aldeia Bom Futuro, na Terra Indígena Kaxinawa do Rio Jordão, mostra a intensidade, a seriedade e o orgulho com que José Sales Kaxinawa, o bigodinho, atuava como AAFI em sua terra.

“Fui visitar a aldeia Bom Futuro como AAFI para ver como estavam os quintais e os SAFs. Então, hoje, na parte da manhã, às 9:00 horas, fizemos visita do trabalho do AAFI junto com assessor da CPI Adriano e na comunidade do AAFI Heleno Barbosa Alfredo Kaxinawá. O que eu vi, na minha observação, é que todas as plantas estão muito bonitas, algumas já estão produzindo frutas e algumas não estão produzindo ainda. Todas as plantas que nós visitamos, fui eu que plantei quando comecei a trabalhar como AAFI na aldeia Pão Sagrado de Jesus, em 1999. Aqui, na aldeia Bom Futuro, comecei trabalhar como AAFI quando ainda morava junto com toda minha família, meu avô e minha avó, tio e tia, e meu pai finado Edson Medeiros Ixã, e minha mãe Alzina Sales Ayani. Nós morávamos juntos ainda aqui nessa aldeia. Morei três anos trabalhando como AAFI junto com minha família, aí, em 2004, eu fiz outra mudança para outra aldeia no Seringal Independência Alto Rio Tarauacá. Então, hoje em dia, o meu trabalho já tá dando um pequeno resultado sobre as frutas de açaí dentro da comunidade. É um pequeno demonstrativo do valor do trabalho do AAFI para segurar a alimentação do povo Huni Kuî, manter a merenda regionalizada na escola para os alunos e, também, poder vender no mercado do município para comprar as necessidades. Isso é importante. O valor do açaí dentro da comunidade indígena. O açaí é importante, também, porque com a semente pode ser feito artesanato, ele protege os rios, o solo e evita o aquecimento global, protege o meio ambiente, é serviço ambiental do próprio homem ajudando a floresta. Também ajuda a biodiversidade. Portanto, essas plantas das unidades de produção agroflorestal nos quintais e no SAF ajuda para nós [índios] vivermos com tranquilidade, respirar o ar limpo da atmosfera. As plantas respiram gás carbônico e guardam dentro delas. Nós, povos da humanidade, respiramos oxigênio da floresta. Por isso, nós podemos viver consorciado com a floresta, sem destruir e nem poluir, para viver melhor, com qualidade, a nossa vida do nosso povo e em outras gerações do mundo”.

José Sales Kaxinawa, obrigado por ter nos deixado sua sabedoria.